Sexta-feira à noite, fui com meu marido assistir à estreia de Autobiografia do Vermelho. Tinha sido uma semana intensa e, confesso, eu estava bem cansada. Se fosse qualquer outro programa eu provavelmente teria cancelado, mas este não. Nenhum de nós se permitiria perder, e que bom que assim foi.
A peça parte do livro da Anne Carson, autora canadense que eu conhecia só de nome, dessas que circulam em listas, em conversas de gente que lê mais do que eu, e que a gente sempre adia. Saí da peça com vontade de finalmente ir atrás do livro, que é talvez o maior elogio que se pode fazer a uma adaptação. Carson reconta o mito de Gerião, o monstro vermelho de seis mãos morto por Héracles em um dos doze trabalhos. Na mitologia, Gerião é só um obstáculo no caminho de Héracles. Carson devolve a ele uma vida inteira: infância, irmão, mãe, primeira paixão.
Gerião na versão dela é um menino vermelho com asas, sensível demais para o mundo, que se apaixona por Héracles aos catorze anos e nunca se recupera disso. Muito me impressionou a contenção e a atuação da Bianca Comparato. Gerião é um papel que pediria muito, é monstro, é menino, é amante, é fotógrafo, e ela faz tudo isso por subtração. Não vi uma atriz interpretando um monstro, vi alguém habitando a estranheza de existir num corpo que não cabe em lugar nenhum.
O que ficou foi mais físico, a Bianca sozinha em cena durante quase duas horas, a música ao vivo do Lello Bezerra construindol o chão da peça. A direção da Daniela Thomas entende que Carson não se traduz em ação dramática convencional. O texto é poesia, é fragmento, e a peça respeita isso. Não tenta amarrar tudo num arco de começo, meio e fim, deixa o público se virar com a costura.
Aliás, devo dizer: como é especial e raro, em 2026, passar duas horas sem celular, sem pausa, sem segunda tela, numa peça de poucos recursos visuais e uma atuação que sustenta tudo do começo ao fim. O teatro é uma das últimas experiências em que você não controla o tempo. Não dá para adiantar a cena chata, não dá para reler a fala que você não pegou. Ou está ali, ou não está. E essa obrigação de estar inteira, no fim, é um descanso. Às vezes a gente esquece como é bom não ter escolha.
Autobiografia do Vermelho não é uma peça que entrega resposta. Pelo contrário, é uma peça da qual você sai sem conseguir resumir para a pessoa que perguntar amanhã como foi. Vou tentar mesmo assim: foi sobre um menino vermelho que ama um homem que não sabe amar de volta, e sobre como a gente carrega para o resto da vida as coisas que nos aconteceram aos catorze anos. Mas isso é redutor. Vai e vê. Está em cartaz no Sesc Avenida Paulista.







