Existem objetos que atravessam o dia a dia carregando histórias que nunca chegamos a conhecer. Um perfume, uma flor, um gesto que se repete. Convivemos com eles por tanto tempo que deixam de provocar qualquer pergunta. Mas às vezes uma pergunta chega tarde, e muda tudo.
Minha avó usava vários perfumes. Entre eles, Miss Dior. Por anos, o frasco ficou na penteadeira dela como um dado do mundo, óbvio e sem mistério. Só muito tempo depois fui entender que Miss Dior não era apenas um perfume. Era o nome de uma mulher.
Catherine Dior era irmã de Christian, mas sua história pertence a um outro registro inteiramente. Durante a Segunda Guerra, atuou na resistência francesa. Foi presa. Deportada. Sobreviveu. Esses fatos existem escritos em poucas linhas, e sempre parecem insuficientes diante do que não pode ser completamente narrado.
Ao meu ver, o que mais permanece, porém, não é o que aconteceu. É o que veio depois.
Depois da guerra, Catherine foi para o sul da França e passou a cultivar rosas na Provença. Não como ruptura, não como esquecimento. Como uma escolha muito específica de como continuar existindo no mundo, penso eu.
Cultivar exige uma relação com o tempo que não se impõe. Existe espera, repetição, cuidado que não se mostra mas que sustenta tudo o que, mais tarde, aparece. Um jardim não revela o que veio antes dele. Carrega, mas não conta. É possível supor, impossível saber de verdade.
Penso que há muitas forças que funcionam assim. Gestos que se repetem no silêncio. Estruturas emocionais que não têm nome. Formas de cuidado que não aparecem, mas que permitem que muitas coisas continuem existindo, continuem aflorando. Há Mulheres que constroem dessa maneira, sem transformar isso em espetáculo, mas em prática contínua.
A penteadeira da minha avó não me contou nada sobre Catherine. Mas o perfume ficou. E agora que sei, não consigo mais separar os dois.
Esta é a primeira de três histórias sobre forças invisíveis, sobre o que sustenta o que floresce. Porque nem toda flor nasce sozinha, menos ainda se sustentam. Algumas são resultado de um cuidado que nunca foi nomeado, mas que sempre esteve lá.
Obs: Se você quiser se aproximar mais dessa história, a série Dior disponível na Netflix dedica um episódio à Catherine e ao jardim de rosas que ela cultivou na Provença. É um bom ponto de entrada.









sua escrita é deliciosa ✨✨
Que delicia poder ler o que você escreve. Comecei a assistir The New Look na Apple TV que conta bastante da história de Catherine. Já estou ansiosa para ler as outras partes dessa história.